[09] Leituras // Redação do arquivo

Ensaios
Críticos

Seis leituras transversais da obra, escritas para este arquivo, seguidas de uma bibliografia crítica para aprofundar.

[E.01]A grade como relógioWatchmen e a disciplina dos nove quadros6 min de leitura
Obras
citadas
Watchmen

Watchmen é construído sobre uma grade de três por três quadros por página. A regularidade tem uma função: cada quadro ocupa o mesmo tempo de leitura, e a página passa a funcionar como o mostrador de um relógio. Não por acaso, o relógio do Juízo Final avança a cada capa.

Quando Gibbons quebra a grade, unindo quadros ou abrindo um quadro de página inteira, o leitor sente o golpe. A forma rígida transforma pequenas variações em acontecimentos. É o mesmo princípio de um poema metrificado: a regra existe para que o desvio tenha peso.

A edição 5, “Fearful Symmetry”, leva a ideia ao extremo. A primeira página espelha a última, a segunda espelha a penúltima, até o centro, onde Ozymandias é atacado. A estrutura se torna argumento: num mundo desenhado com tanta simetria, alguém está desenhando.

[E.02]O super-herói desmontadoDe Miracleman a Tom Strong7 min de leitura
Obras
citadas
MiraclemanWatchmenSupremeTom Strong

Nos anos 1980, Moore fez a pergunta que o gênero evitava: o que um ser com poderes absolutos faria de verdade? Em Miracleman, a resposta é uma utopia autoritária. Em Watchmen, é um homem que perde o interesse pela humanidade e outro que decide salvá-la matando milhões.

A desconstrução fez sucesso, e o mercado copiou o tom sem a reflexão. Heróis sombrios e violentos viraram fórmula nos anos 1990, e Moore passou a falar dessa herança com desconforto.

A resposta veio em Supreme e na linha America’s Best Comics. Tom Strong e Top 10 recuperam o otimismo e a invenção dos quadrinhos da era de ouro, agora com plena consciência da forma. Depois de desmontar o brinquedo, Moore tentou mostrar como montá-lo de novo.

[E.03]Contra a propriedadeAutoria, contratos e recusas6 min de leitura
Obras
citadas
V for VendettaWatchmenMarvelman

A carreira de Moore pode ser lida como uma longa disputa sobre quem é dono de uma história. Marvelman passou décadas preso numa disputa de direitos. Watchmen e V for Vendetta continuam pertencendo à DC porque nunca saíram de catálogo.

Moore respondeu mudando de editora, fundando a própria, publicando com pequenas casas independentes e, por fim, recusando qualquer participação nas adaptações. Cada recusa foi tratada pela imprensa como excentricidade; para ele, é coerência.

O tema atravessa a ficção. V destrói o Estado que controla as narrativas. A Liga Extraordinária toma personagens em domínio público e os devolve à circulação. Jerusalém dá voz a pessoas que nunca foram donas de nada. A política da obra e a política do autor são a mesma.

[E.04]Todo momento é eternoO eternalismo de Manhattan a Mansoul8 min de leitura
Obras
citadas
WatchmenA Voz do FogoJerusalém

O Dr. Manhattan percebe passado, presente e futuro ao mesmo tempo. Na edição 4 de Watchmen ele está em Marte e, simultaneamente, em cada momento da própria vida. É a primeira formulação clara de uma ideia que Moore desenvolveria por trinta anos.

A Voz do Fogo aplica a mesma ideia a um território: seis mil anos sobrepostos no mesmo pedaço de terra, com ecos que atravessam os capítulos. O tempo deixa de ser uma linha e vira uma camada.

Em Jerusalém, o eternalismo se torna consolo. Se todo momento existe para sempre, nada do que foi vivido nos Boroughs se perdeu com a demolição do bairro. A teoria física vira uma ética: a vida comum merece ser lembrada porque continua acontecendo.

[E.05]A cidade como textoPsicogeografia de Whitechapel aos Boroughs7 min de leitura
Obras
citadas
From HellA Voz do FogoJerusalémworkings

Para Moore, um lugar não é cenário: é um documento. Em From Hell, as igrejas de Hawksmoor, os obeliscos e as ruas de Whitechapel são lidos como frases de um texto que William Gull acredita estar escrevendo com sangue. O livro não pede que acreditemos no ritual, mas que aceitemos a premissa de que a arquitetura carrega intenções.

Os workings dos anos 1990 aplicam o mesmo método no palco. The Highbury Working escava Clerkenwell e Highbury; Snakes and Ladders parte de Red Lion Square. Em cada caso, Moore pesquisa a história de um pedaço pequeno de Londres até encontrar nele uma cosmologia inteira, e então a recita.

Em casa, a escala diminui e a ambição cresce. A Voz do Fogo e Jerusalém fazem de Northampton, uma cidade que raramente aparece em guias, o centro do mundo. É uma resposta política tanto quanto estética: dizer que os Boroughs merecem a mesma atenção que Londres é dizer que as vidas de quem morou ali também merecem.

[E.06]Leituras difíceisViolência sexual e a recepção crítica8 min de leitura
Obras
citadas
WatchmenThe Killing JokeMiraclemanLost GirlsNeonomicon

Qualquer leitura séria de Moore precisa encarar um padrão: a violência sexual aparece com frequência na obra. Em Watchmen, a tentativa de estupro de Sally Jupiter pelo Comediante pesa sobre toda a série. Em A Piada Mortal, Barbara Gordon é baleada e despida pelo Coringa para torturar o pai, e a cena se tornou um dos exemplos mais discutidos de personagens femininas usadas como instrumento da história de homens.

O próprio Moore disse em entrevistas que não gosta de A Piada Mortal e que a considera um trabalho equivocado. Em outros livros, o tema é tratado de forma deliberada e desconfortável: Neonomicon expõe a misoginia presente nos textos de Lovecraft, e Lost Girls, feito com Melinda Gebbie, reivindica a pornografia como território literário. Os críticos se dividem entre os que veem nisso um exame lúcido do abuso de poder e os que veem repetição e choque gratuito.

Este arquivo não pretende encerrar o debate. Registramos aqui que ele existe, que leitoras e leitores têm razões concretas para se incomodar, e que essa tensão faz parte da obra tanto quanto a grade de nove quadros ou a Árvore da Vida. Admirar Moore não exige ler seus livros sem crítica; eles mesmos pedem o contrário.

Leituras recomendadas

[§] Bibliografia crítica
[01]1997Lights Out for the TerritoryIain SinclairGranta
[02]2002How to Read Superhero Comics and WhyGeoff KlockContinuum
[03]2003The Extraordinary Works of Alan MooreGeorge KhouryTwoMorrows
[04]2009Alan Moore: Comics as Performance, Fiction as ScalpelAnnalisa Di LiddoUniv. Press of Mississippi
[05]2011Alan Moore: StorytellerGary Spencer MillidgeIlex
[06]2013Magic Words: The Extraordinary Life of Alan MooreLance ParkinAurum