[03] Grimório // Prática

Magia &
Ocultismo

Em novembro de 1993, no seu aniversário de quarenta anos, Moore anunciou aos amigos que havia se tornado mago. Não foi um afastamento da escrita. Para ele, magia e arte são a mesma atividade: mudar a consciência por meio de símbolos.

Divindade
Glycon, deus-serpente
Parceiro
Steve Moore (1949—2014)
[DEF. 01] Arte
“Art is, like magic, the science of manipulating symbols, words, or images, to achieve changes in consciousness.”

“A arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens para produzir mudanças na consciência.”

— Alan Moore, em entrevista
[DEF. 02] Magia
“I believe that magic is art, and that art, whether that be writing, music, sculpture, or any other form, is literally magic.”

“Acredito que a magia é arte, e que a arte, seja escrita, música, escultura ou qualquer outra forma, é literalmente magia.”

— The Mindscape of Alan Moore, 2003
Estátua de Glycon, o deus-serpente, encontrada em Tomis (atual Constança, Romênia), séc. II.
SÉC. II D.C.
Fig. 03.1
Estátua de Glycon, o deus-serpente, encontrada em Tomis (atual Constança, Romênia), séc. II.Ángel M. Felicísimo · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
[I] O deus fantoche

Glycon

Glycon foi uma divindade em forma de serpente com cabeça de feições quase humanas, cultuada no Império Romano a partir do século II. O culto foi criado por Alexandre de Abonoteichos, um profeta que, segundo o satirista Luciano de Samósata, exibia uma cobra domesticada com uma cabeça de pano manipulada como fantoche.

Moore escolheu Glycon justamente por essa reputação. Um deus assumidamente fabricado torna explícita a tese que ele defende: deuses, como personagens, são feitos de ideias, e nem por isso são menos reais. Ele costuma dizer, rindo, que cultua uma cobra de mão.

Quatro pilares

[§] O sistema de Moore
I

Glycon

Deus-serpente romano do século II, promovido pelo profeta Alexandre de Abonoteichos. Luciano, seu crítico, descreveu-o como um fantoche. Moore o escolheu por isso: um deus obviamente fabricado torna explícito que toda divindade é feita de ideias.

II

Ideia-espaço

Moore descreve a mente como um território compartilhado, o Ideaspace, onde ideias, deuses e personagens existem de forma tão concreta quanto lugares. Escrever é viajar por esse espaço e trazer coisas de lá.

III

A Cabala

A Árvore da Vida, com suas dez esferas, é o mapa que Moore usa para organizar a experiência mágica. Promethea é, em grande parte, um guia ilustrado dessa estrutura.

IV

Eternalismo

Partindo da física do século XX, Moore defende que passado, presente e futuro coexistem num único bloco de espaço-tempo. Nada se perde. A ideia sustenta Watchmen, A Voz do Fogo e Jerusalém.

[III] O mapa

A Árvore da Vida

Dez esferas, as sefirot, ligadas por vinte e dois caminhos, um para cada letra do alfabeto hebraico e, na tradição ocultista ocidental, um para cada arcano maior do tarô. Da base, Malkuth, o mundo material, até o topo, Kether, a coroa.

Em Promethea, Sophie Bangs sobe essa árvore esfera por esfera, uma por edição, com J.H. Williams III mudando cor e linguagem gráfica a cada passo. É provavelmente a introdução mais acessível à Cabala hermética já publicada em qualquer meio.

A Árvore da Vida com os nomes das sefirot em hebraico, segundo o esquema de Athanasius Kircher (Oedipus Aegyptiacus, 1652).
Fig. 03.2
A Árvore da Vida com os nomes das sefirot em hebraico, segundo o esquema de Athanasius Kircher (Oedipus Aegyptiacus, 1652).Athanasius Kircher (vetorização: AnonMoos) · Public domain · Wikimedia Commons
[PERFIL] O mentor

Steve
Moore

1949 — 2014 // sem parentesco

Steve Moore foi amigo de Alan desde a adolescência. Roteirista da 2000 AD e da Warrior e estudioso do I Ching, foi ele quem ensinou Alan a escrever roteiros de quadrinhos e, décadas depois, quem o acompanhou na prática mágica.

Steve viveu por anos uma relação devocional com Selene, deusa da lua, tema da performance Unearthing. O livro de magia que os dois planejaram juntos, The Moon and Serpent Bumper Book of Magic, só saiu em 2024, dez anos depois da morte de Steve.

Genealogia

[§] Os mortos com quem Moore conversa
01

John Dee

1527 — 1609

Matemático, astrólogo de Elizabeth I e criador, com Edward Kelley, da língua enoquiana. Figura de referência para o ocultismo inglês que Moore herda; aparece em Promethea e no Black Dossier da Liga.

John Dee.
John Dee.Pintor não identificado · Public domain · Wikimedia Commons
02

William Blake

1757 — 1827

Poeta, gravador e visionário. Tema da performance Angel Passage (2001); o título de Jerusalém dialoga com sua obra.

William Blake.
William Blake.William Blake · Public domain · Wikimedia Commons
03

Aleister Crowley

1875 — 1947

O mago mais conhecido do século XX. Aparece em Promethea, na história da magia contada pela série.

Aleister Crowley.
Aleister Crowley.Autor desconhecido · Public domain · Wikimedia Commons
04

Austin Osman Spare

1886 — 1956

Artista e ocultista londrino, criador da magia de sigilos. Para Moore, o exemplo mais puro do artista-mago.

Austin Osman Spare.
Austin Osman Spare.Autor desconhecido · Public domain · Wikimedia Commons